quarta-feira, 27 de maio de 2009

As memórias de Oswald Miramar




O movimento modernista surgiu quando a sociedade ainda bebia dos frutos da estética simbolista e parnasiana, com uma proposta totalmente inovadora e que rompia em absoluto com as idéias das estéticas vigentes.
A sociedade brasileira aspirava por novas transformações de cunho econômico e, sobretudo, cultural após o período de guerra que se estendeu por todo o mundo. A área mais ansiosa do Brasil para tais modificações era São Paulo: “Aqui a ruptura foi possível, porque só aqui o processo social e econômico gerava uma sede de contemporaneidade junto à qual o resto da Nação parecia ainda uma vasta província do Parnaso.” (BOSI, p. 209).


Nesse cenário angustiante e angustiado por novidades, a França, a Itália, a Alemanha e a Rússia tomam a frente e propõem novos rumos para a estética das artes e consequentemente, para o estilo de vida da sociedade européia. Alguns dos poetas brasileiros, em convívio com tais idéias inovadoras, foram influenciados a pensar em algo emocionalmente novo, algo que a sociedade precisava para acalmar os ânimos pós-guerra. Dessa forma, foi organizada a Semana de arte moderna: “Como a tônica do grupo foi a modernização da linguagem, o segundo fator, estético, tem aparecido sempre sobredeterminante. A Semana pretendeu ser a abolição da República Velha das letras”. (BOSI, p.210).


Pode-se ter como exemplo de obras totalmente modernas que operaram o desligamento com o antigo e uma ligação com o ainda desconhecido pela sociedade, Paulicéia desvairada 1922 de Mário de Andrade e Memórias sentimentais de João Miramar 1923, de Oswald de Andrade, que contaram com a participação da alta burguesia paulistana de pensamentos curiosos e viajados, com grande poder crítico. Por isso, podemos encontrar na poesia de Oswald e Mário de Andrade recursos imagísticos que retomam à indústria, à máquina, à velocidade, à burguesia, à metrópole, ao intelectual beletrista e tantas outras imagens que podem reportar a uma época de glamour e ao mesmo tempo de transformação social, econômica e cultural.


A começar pela sua composição, o livro exibe uma prosa fragmentada, permitindo que elementos, a princípio, díspares se encontrem unidos em um mesmo plano oracional, como lembranças que puxam outras lembranças, numa relação de associação típica da memória, mas que aqui ganha uma nova cor devido aos recursos estilísticos utilizados pelo narrador.Dessa forma, a memória não se restringe a lembranças de algo que fora passado e/ou ocorrido na vida do personagem, assim como no termo latino que traduz memorìa,ae, de mèmor,óris “aquele que se lembra, que se recorda”, mas como estas vão sendo apresentadas no decorrer do livro. Alguns trechos exemplificam isso muito claramente:

Depois, de cima, pensão de artistas caíam pingos profundos de Chopin na comida” (p.23).
“Esquecia-me olhando o céu e a estrela diurna que vinha me contar salgada do banho como estudara num colégio interno, recordava-me dos noivados dormitórios das primas” (P.27)
“Casas punham pierrots na estrada quando de repente a gare chata dos banhos manifestou catálogos coloridos de Riviera no cimento de campainhas” (p.33).


Alguns estudos apontam a memória como recurso de criação literária, a exemplo disso destaca-se Proust, que vai considerar dois tipos de memória: memória voluntária, tida como um depósito de lembranças sempre à nossa disposição, e a memória involuntária, somente evocada por acaso e que desperta um verdadeiro mar de sensações. A escolha das memórias narradas, não provêm de fatos aleatórios ou feitas a partir de objetos que desencadeiam uma série de lembranças, mas de episódios que servem de instrumento para a realização de sua invenção literária.
Ecléa Bosi em seu livro “O tempo vivo da Memória”, apresenta a questão memorística não só como instrumento de criação, mas também como uma espécie de marca individual e sentimental de quem as reproduz:




“Há pois , da parte do sujeito que conhecemos como narrador oral memoralista, uma atividade que não é apenas de simbolização (por meio de conceitos ou de operações do entendimento); é também da intuição de um devir, do seu próprio devir de homem que se vê envelhecendo, enquanto sentimento de um tempo que, simultaneamente, passou a se re-apresentar à consciência e ao coração.”(p.45)




Neste caso, a memória não só recorre ao fato de reviver imagens passadas, mas também apresenta-se como uma exteriorização de fatos que marcaram e que podem ser modificados no ato do relembrar. Como diz no poema “Carta aberta a John Ashbery”, de Waly Salomão:



A memória é uma ilha de edição - um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.


Cada vez que o que foi dito é apagado para ser dito novamente, o é de maneira diferente, com outras palavras, com outra carga de emoção; se assim não fosse, não haveria motivos para ser apagado. Esse ato nos remete a uma questão importante ligada a memória: o fator esquecimento. Pois o que não pode ser lembrado, está esquecido. Como situa Weinrich, a mais eficiente de todas as imagens do esquecimento vem da mitologia grega. Para os gregos, Letes é uma divindade feminina que contrasta com Mnemosyne, deusa da memória. Lete também designa um rio do submundo que continha em suas águas o líquido responsável pelo esquecimento. Os antigos autores gregos acreditavam que as almas mortas bebiam da água do Lete para ficarem livres para renascer novamente. Linha tênue esta que liga a memória e o esquecimento. Weinrich ainda cita a origem do termo “arte da memória” (grego techne, latim ars). Segundo a história contada, um poeta chamado Simôdes foi convidado para uma festa, da qual foi testemunha de um acidente trágico. Porque memorizou os lugares de cada pessoa à mesa, os corpos irreconhecíveis da tragédia foram identificados. Por este fato, ele passou a ser o inventor da mnemotécnica.



A obra de Oswald de Andrade não deixa, inclusive, de acompanhar a essência modernista, indo de encontro a vários preceitos que faziam parte da tradição literária nacional, como a própria definição de romance, que se torna comprometida. Isso ocorre por causa da ruptura com certos aspectos que contribuem para a definição do romance como normalmente o compreendemos, como, por exemplo, uma cronologia não muito bem definida por parte da narrativa oswaldiana, bem como a ausência de um limite mais claro entre o que é ficção e o que é autobiografia e, até mesmo, a falta de um desfecho convencional para a história, todos esses aspectos contribuem para essa característica altamente inventiva da obra, uma "prosa cinematográfica", como nomeia Haroldo de Campos.



Os jornais noticiaram de repente que acossada pela flagração achava-se em Pernambuco a bordo do Darro a jovem estrela cinematográfica Mlle. Rolah.
Até ontem a ala esquerda dos aliados fazia recuarem quase desordenadamente as tropas invasoras numa distância de 70 quilômetros enquanto Joffre Rolah e a ala direita formavam ângulo em Verdum com as tropas de leste cobrindo-as assim contra um envolvimento do Darro. (Trecho 82. Tática, p. 51).


É crucial pensar no novo estilo de literatura lançado pelo autor que, através de “flashes cinematográficos”, consegue atrelar num ato criativo e poético, suas memórias e sentimentos numa perspectiva subjetiva e, portanto, ausente de quaisquer características de tempo ou espaço. As lembranças se fundem simultaneamente, constituindo flashes mentais. Além disso, há uma “descontinuidade cênica” que é revelada pela despreocupação de Oswald em traçar uma linha cronológica em sua invenção, cuja junção dos fragmentos emergiria uma nova imagem maior, sendo este o sentido cinematográfico numa perspectiva eisensteiniana (Teoria da Montagem), o que aproxima esta obra de Oswald, como destacou Haroldo de Campos, à Ulysses, de Joyce.


Ainda nesta composição estética, Oswald utiliza sintaxe e estilística renovadas, fragmentando as frases e retirando a maior parte das pontuações, causando descontinuidade e justaposição, fatores composicionais que reforçam a idéia despreocupada da não linearidade:



Os jornais noticiaram de repente que acossada pela flagração achava-se em Pernambuco a bordo do Darro a jovem estrela cinematográfica Mlle. Rolah.
Até ontem a ala esquerda dos aliados fazia recuarem quase desordenadamente as tropas invasoras numa distância de 70 quilômetros enquanto Joffre Rolah e a ala direita formavam ângulo em Verdum com as tropas de leste cobrindo-as assim contra um envolvimento do Darro. (Trecho 82. Tática, p. 51).


Por outro lado, esta estética pode ser comparada à preceitos do futurismo plástico no que se trata de simultaneidade, também compreendida como “imaginação sem fios”. Parte disso porque o próprio movimento futurista, adotado por Oswald desde sua visita a Europa, pretendia abolir a sintaxe, os adjetivos e pregava uma nova estética, sendo afirmado no Brasil com o contexto do Manifesto-Fondazione del Futurismo, de Marinetti, que dizia, dentre outras coisas: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia”, atrelando esta ideologia à estrutura das obras como observamos ao ler, por exemplo, “O vento batia a madrugada como um marido. Mas ela perscrutava o escuro teimoso”, em Miramar.


Percebe-se que, apesar de ter um forte conteúdo ligado a linguagem escrita, “Memórias sentimentais de João Miramar” pode ser lido sob a óptica da linguagem audiovisual que as teorias do cinema e das artes plásticas nos proporcionam. Esta obra também submete-nos a uma reflexão filosófica que só é reconhecida se lida, como diz o autor, “com olhos livres”.
Neste sentido, pudemos compreender o sentido de história e invenção, a partir de um contexto histórico e de um outro contexto pessoal, Oswald inventou uma narrativa, dividindo-a em 163 cenas breves e assistemáticas, as quais representam o retrato cotidiano da vida do próprio autor, através de uma forma difusa e inovadora desde a construção sintática até a montagem visual – quase cinematográfica – do todo da obra.



Referências

ANTUNES, Arnaldo. Cabimento. Letra de música, disponível em . Acesso em 25 de maio de 2009, 20h e 30 min.
ANDRADE, Oswald. Memórias sentimentais de João Miramar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 5ª ed.,1975.
BOSI , Ecléa. O tempo vivo da memória : Ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2ª ed. 2003
BOSI, Alfredo. Moderno e modernista na literatura brasileira. In: Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo, duas cidades, 34ª ed., 2003.
CAMPOS, Haroldo de. Texto e história. In: A operação do texto. Perspectiva, 1976.
SALOMÃO, Waly. Carta aberta a John Ashbery. Poema disponível em: ,. Acesso em 25 de maio de 2009, 22h e 50min.
WEINRICH, Harald. Lete: arte crítica do esquecimento. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro, Civilização brasileira, 2001.

A case of you


Just before our love got lost you said
I am as constant as a northern star
And I said, constantly in the darkness
Where's that at?

If you want me I'll be in the bar

On the back of a carton coaster
In the blue TV screen light

I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice

Oh you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
Oh I would still be on my feet


Oh I am a lonely painter I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
Love is touching souls

Surely you touched mine
Cause part of you pours out of me In these lines from time to time

Oh you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet I would still be on my feet
I met a woman

She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
Go to him, stay with him if you can
But be prepared to bleed
Oh but you are in my blood you're my holy wine
You're so bitter, bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
Still I'd be on my

would still be on my feet

domingo, 3 de maio de 2009

O rochedo do sono é tão fechado

O Rochedo do sono é tão fechado,
tão pedra de Esaú, tão existido,
que ele cumpre na vida um grande fado,
- o de acolher um Édipo impunido.

Sempre em seu bojo há um anjo adomercido
e um menino num poço debruçado;
o cão noturno late, e o seu latido
é o grito do menino já afogado.

À noite barba-azul dormingo joga
sete princesas pálidas no poço,
e o poço voracíssimo as engole.

E engole indiferente quem se afoga,
- sete pedras atadas ao pescoço
que pedra e amor é o mesmo no seu gole.

Jorge de Lima

Análise crítica do Rochedo do sono é tão fechado

Fazendo uso de um "modernismo classicizado", como nomeia Coelho, 2008, a poesia de Jorge de Lima segue rica em imagens que retoma formas clássicas, assim como diz Coelho "Jorge de Lima parece ter mergulhado num mangue noturno de poemas imersos, herméticos, angustiados". (Coelho, 2008).Pode-se perceber no soneto a presença de rimas cruzadas ABAB, BABA, CDE, CDE com versos bem acabados. As rimas fechadas (ado, ido, oga, oço, ole) nos faz perceber a circularidade do poema e toda a estrutura fechada, intensificada pela repetição da palavra "tão" nos dois primeiros versos, decorrente do título do soneto, "rochedo do sono é tão fechado". Além da forma clássica, há presença de enjambement no sétimo verso, causando uma tensão e suspensão da realidade "o cão noturno late, e seu latido/ é o grito do menino já afogado".No decorrer do poema aparecem várias isotopias referentes ao rochedo que demonstra que todas as imagens estão ligadas ao mesmo: pedra, bojo, poço. Nos chama atenção o fato de surgirem três nomes de personagens históricas: Esaú, Édipo e Barba-azul. O primeiro é um personagem bíblico que teve o seu direito de primogênito usurpado pelo irmão Jacó. Essa desavença entre os irmãos desencadeou a divisão de duas nações: Israel e Palestina. O segundo é personagem da mitologia grega, que ao tentar fugir de seu destino, mata o pai e casa-se com a própria mãe. O terceiro é personagem de uma lenda infantil francesa que ficou conhecido por colecionar os corpos das esposas assassinadas por ele. Todos os personagens ligados por conflitos internos. O movimento surrealista é caracterizado pela escrita automática, que representa o real extraído do sonho. Neste caso, o rochedo representa a zona oculta do subconsciente de cada personagem em conflito. Fato que explica as figuras de peso no poema"o rochedo do sono é tão pesado/ tão pedra de Esaú, tão existido/ que ele cumpre na vida um grande fado/ o de acolher um Édipo impunido". O ambiente onírico reforça esse fato, visto que as pessoas normalmente sonham quando dormem. Vale uma compração entre o concreto e o abstrato "que pedra e amor é o mesmo no seu gole", reafirmada pelas metáforas do incosciente em forma mais concreta: rochedo, pedra, poço. A água, presente a partir do oitavo verso, significa o elemento da punição "é o grito do menino já afogado/ e engole indiferente a quem se afoga". É o lemento redentor e único que possui movimento diante da forma estática presente a partit do rochedo em todo o poema. Essa dualidade água/ rochedo, vista simbolicamente, pode contrapor o movimento/ forma estática; vida/ morte. Pode-se perceber a presença do subconsciente do eu-lírico (principalmente nos versos antecipados de travessão, possivelmente indicando a fala do subconsciente) tentando se externalizar através das formas concretas que remetem a ações dignas de punição.

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, Mário. Paulicéia desvairada: modernização de São Paulo (ensaio).

BOSI, Alfredo. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo, duas cidades, ed. 34, 2003.

COELHO, Marcelo. Poemas herméticos e angustiados. 2008, (ensaio)In:http://www.revista.agulha.nom.br/ag56lima.htm.

LIMA, Sérgio. Notas acerca do movimento surrealista no Brasil. In: http://www.triplov.com/surreal/sergio_lima.html.

WILLER, Claudio. Surrealismo no Brasil- rebelião e imagens poéticas. In: http://www.revista.agulha.nom.br/ag27willer.htm.

sábado, 2 de maio de 2009

Em voltas de mim

O muro espinhoso que dividia um coração amargo partiu-se em dois e a estrada, semi-formada, poderá indicar um novo caminho a seguir, onde as entrelinhas do chão seco ainda estão suspensas. O sufocante ar da noite pesa em meus pulmões cansados: respirar é uma alternativa. O velho caminho, que já conheço, parece um universo embassado em cores múltiplas. Meu livre coração carrega marcas do muro espinhoso e sente-se preso pelas dúvidas crescentes: é preciso fazer escolhas. Enteder que não há ganhos sem perdas parece lógico, mas o lobo do medo que há em mim firma suas presas na imensidão dos meus pensamentos. A confusão se espalha, deixando cada parte dos meus nervos em alerta. E agora? Encontrar uma fresta de luz para solucionar a equação inexata em que me encontro pode ser a saída. Distinguir o certo do errado quando o certo parece errado e o errado certo é difícil e a dificuldade causa o êxtase que aciona o lobo enjaulado. Sinto a reação da ação dos meus passos lentos em direção ao não ser. É dolorido não ser. Talvez a chave da porta de ferro não esteja do lado de fora. Talvez as persianas não precisem ser abertas agora. Talvez o lobo precise de mais tempo para se acalmar. Me perco na extensão do talvez. Continuo no caminho em voltas de mim.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sufocação

O silêncio transbordou em sopro
Nas palavras sólidas
O instante transformou em horas
Os sussurros ocos

O vazio preencheu em claro
As paredes cinzas
Eis um caminho de farpas
Da solidão dividida

Já não é o passado
De lembranças contidas
Com presente será novas formas
Da vida compartida

O regresso

Ela nunca conseguia tomar qualquer decisão sem levar, pelo menos, alguns minutos. Quando o sol estava encoberto por nuvens espessas, não sabia se levava o guarda-chuva. Quando entrava em uma loja, não sabia que camiseta ou jeans comprar. Luísa nunca sabia que decisão tomar e isto a inquietava muito. Não saber o que vestir, não saber o que comprar, não saber para onde ir. Uma vida cheia de dúvidas.
Mas as dúvidas de Luísa não eram as únicas coisas inquietantes em sua vida. Detestava ter que agir como um robô, falar como um robô, sorrir como um robô ou algum tipo de marionete. Sentia como se alguém estivesse dentro dela realizando todas aquelas ações de sempre, como se estivesse atuando numa peça, mas do lado de fora. Sentia vontade de gritar: “Pare!” e tentar dominar seus olhos, suas mãos, seu corpo. Mas sabia que não adiantaria muita coisa, pois estava no meio de uma cachoeira prestes a ser levada pela queda d’água.
Uma vez leu em algum lugar que a vida era repleta de sonhos sem formas. Achou bonito, mas não conseguiu pensar qual era seu sonho ou mesmo definir se tinha algum. Até então, sonho para ela era algum tipo de bolinho que se compra na padaria.
Estava exausta de sentir-se culpada por tudo aquilo que não fazia; de acabar mais um dia de trabalho com aquele nó na garganta e uma sensação de vazio dentro do estômago; de tomar todos aqueles banhos demorados e continuar sentido-se suja; de sentir um vazio ao beijar o homem que sempre dava caixas de bombons quando completavam mais um mês de namoro; de dizer “alô” com a mesma voz; de ter que sorrir para os amigos e participar das conversas das quais não gostava.
Estava cansada de tudo isso. De ser uma espectadora da sua própria vida.
Foi com esse sentimento que, numa bela noite de setembro, Luísa fechou os olhos e sonhou. Sonhou com algo que nunca sequer tinha imaginado.
Sonhou que estava em um jardim grande e com uma fonte de águas puras no centro. Não sabia como, mas sentia que, se tomasse daquela água, ficaria imaculada. Sentiu suas roupas sumirem gradativamente. Ela estava envergonhada e mesmo assim queria entrar inteira na fonte, mas tinha medo que sua sujeira contaminasse o local. Sentia-se extremamente suja naquele momento. Inclinou-se um pouco e tomou uns goles de água e uma sensação de imenso alívio a contagiou.
Regressou para o útero de sua mãe.
Lembrou daquele calor humano e uma sensação de proteção encheu seu coração de paz. Queria ficar para sempre naquele invólucro cheio de amor. De repente, notou que uma força a estava expulsando de dentro de sua mãe e, quando deu por si, ela estava no balanço sendo empurrada por um garoto um pouco maior que ela. Tinha sete anos naquela ocasião e foi a primeira vez que viu seu atual namorado. Sentiu novamente a mesma força de há pouco e se viu num beco, atrás da escola no dia da sua formatura com o rapaz mais lindo da sala. Mas ele não era o seu namorado. De novo aquela força, mas desta vez ela não parou em nenhuma etapa de sua vida e sim, ao lado da fonte. Demorou um pouco para se acostumar novamente com o lugar. O cheiro das flores chegou às suas narinas e ela ficou calma.
Aos poucos foi notando que umas pessoas se aproximavam. Não teve vontade de se vestir, pois agora sentia-se pura. Rapidamente ela percebeu que as pessoas também estavam nuas e não estavam envergonhadas. “Já devem ter tomado da água”, pensou. Então, o grupo foi se afastando e ela foi se mexendo em direção aquelas pessoas tão diferentes das que ela estava acostumada. Ela se deixou conduzir por uma estradinha com árvores cheias de frutos. Analisou demoradamente o formato dos frutos e concluiu que nunca os tinha visto antes. Queria nunca mais sair daquele lugar e deixar de sentir aquela sensação de desligamento de tudo.
Ao fim da caminhada, chegou ao hall de um salão enorme e branco. As paredes eram brancas e havia uma mesa com uma toalha branca e uma vasilha azul. Era um tom de azul diferente, quase opaco visto de longe. Não deu muita importância para aquilo e continuou olhando ao redor. Na sala em frente ao hall havia um grupo de idosos meditando e sussurrando umas palavras incompreensíveis. Aproximou-se do velho com a barba grande e limpa e com vestes brancas para tentar ouvir o que ele dizia. Mal chegou perto e de repente, veio uma sensação estranha e seu corpo começou a se contorcer em cólicas doloridas e irritantes. Um baque surdo e uma pancada sólida se formaram quando seu corpo entrou em atrito com o chão. Mais e mais dores. Ela berrou até sentir que a voz lhe faltava. A sensação de agulhas penetrando seu corpo e uma dor de cabeça aguda a fizeram pensar que se aquilo não parasse poderia enlouquecer. Queria entender porquê aquilo estava acontecendo, mas não conseguia raciocinar direito. Os minutos pareciam horas, dias. Quando, enfim, as dores cessaram, levantou-se. Organizou os pensamentos, confusos depois da queda, e percebeu que nada havia mudado no local. Ninguém parecia ter percebido o que havia acontecido ou mesmo notado sua presença no lugar. Cada pessoa na sala continuou fazendo exatamente a mesma coisa que fazia antes dela chegar.
Ficou atordoada diante da situação, mas não por muito tempo. Curiosamente foi em direção a mesa e olhou para dentro da vasilha que vira ao chegar. Era funda e dessa vez a cor não lhe pareceu opaca e sem vida, mas de um azul incandescente que fizeram seus olhos fecharem. Ao conseguir abri-los novamente pôde perceber que, no centro da vasilha, havia um relógio marcando sete horas da manhã, a hora que despertava todos os dias.
Um jato de luz invadiu o ambiente e ela soube que era hora de voltar.
Acordou.
Estava suada e exausta. Não lembrava de nada. Apenas sentia uma leve sensação de tontura e um calafrio arrepiou os pêlos do seu braço. Após alguns minutos, levantou-se. Foi lavar o rosto no banheiro e ao mirar sua imagem no espelho, não percebeu nada de diferente. Sentiu-se aliviada por alguns segundos.
Demorou bastante em frente ao espelho refletindo sobre tudo o que havia passado naquela noite, em seu sonho. Respirou fundo e pela primeira vez em sua vida, Luísa sabia exatamente o que fazer.