
A sociedade brasileira aspirava por novas transformações de cunho econômico e, sobretudo, cultural após o período de guerra que se estendeu por todo o mundo. A área mais ansiosa do Brasil para tais modificações era São Paulo: “Aqui a ruptura foi possível, porque só aqui o processo social e econômico gerava uma sede de contemporaneidade junto à qual o resto da Nação parecia ainda uma vasta província do Parnaso.” (BOSI, p. 209).
“Depois, de cima, pensão de artistas caíam pingos profundos de Chopin na comida” (p.23).
“Esquecia-me olhando o céu e a estrela diurna que vinha me contar salgada do banho como estudara num colégio interno, recordava-me dos noivados dormitórios das primas” (P.27)
“Casas punham pierrots na estrada quando de repente a gare chata dos banhos manifestou catálogos coloridos de Riviera no cimento de campainhas” (p.33).
Alguns estudos apontam a memória como recurso de criação literária, a exemplo disso destaca-se Proust, que vai considerar dois tipos de memória: memória voluntária, tida como um depósito de lembranças sempre à nossa disposição, e a memória involuntária, somente evocada por acaso e que desperta um verdadeiro mar de sensações. A escolha das memórias narradas, não provêm de fatos aleatórios ou feitas a partir de objetos que desencadeiam uma série de lembranças, mas de episódios que servem de instrumento para a realização de sua invenção literária.
Ecléa Bosi em seu livro “O tempo vivo da Memória”, apresenta a questão memorística não só como instrumento de criação, mas também como uma espécie de marca individual e sentimental de quem as reproduz:
“Há pois , da parte do sujeito que conhecemos como narrador oral memoralista, uma atividade que não é apenas de simbolização (por meio de conceitos ou de operações do entendimento); é também da intuição de um devir, do seu próprio devir de homem que se vê envelhecendo, enquanto sentimento de um tempo que, simultaneamente, passou a se re-apresentar à consciência e ao coração.”(p.45)
Neste caso, a memória não só recorre ao fato de reviver imagens passadas, mas também apresenta-se como uma exteriorização de fatos que marcaram e que podem ser modificados no ato do relembrar. Como diz no poema “Carta aberta a John Ashbery”, de Waly Salomão:
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
Cada vez que o que foi dito é apagado para ser dito novamente, o é de maneira diferente, com outras palavras, com outra carga de emoção; se assim não fosse, não haveria motivos para ser apagado. Esse ato nos remete a uma questão importante ligada a memória: o fator esquecimento. Pois o que não pode ser lembrado, está esquecido. Como situa Weinrich, a mais eficiente de todas as imagens do esquecimento vem da mitologia grega. Para os gregos, Letes é uma divindade feminina que contrasta com Mnemosyne, deusa da memória. Lete também designa um rio do submundo que continha em suas águas o líquido responsável pelo esquecimento. Os antigos autores gregos acreditavam que as almas mortas bebiam da água do Lete para ficarem livres para renascer novamente. Linha tênue esta que liga a memória e o esquecimento. Weinrich ainda cita a origem do termo “arte da memória” (grego techne, latim ars). Segundo a história contada, um poeta chamado Simôdes foi convidado para uma festa, da qual foi testemunha de um acidente trágico. Porque memorizou os lugares de cada pessoa à mesa, os corpos irreconhecíveis da tragédia foram identificados. Por este fato, ele passou a ser o inventor da mnemotécnica.
A obra de Oswald de Andrade não deixa, inclusive, de acompanhar a essência modernista, indo de encontro a vários preceitos que faziam parte da tradição literária nacional, como a própria definição de romance, que se torna comprometida. Isso ocorre por causa da ruptura com certos aspectos que contribuem para a definição do romance como normalmente o compreendemos, como, por exemplo, uma cronologia não muito bem definida por parte da narrativa oswaldiana, bem como a ausência de um limite mais claro entre o que é ficção e o que é autobiografia e, até mesmo, a falta de um desfecho convencional para a história, todos esses aspectos contribuem para essa característica altamente inventiva da obra, uma "prosa cinematográfica", como nomeia Haroldo de Campos.
Os jornais noticiaram de repente que acossada pela flagração achava-se em Pernambuco a bordo do Darro a jovem estrela cinematográfica Mlle. Rolah.
Até ontem a ala esquerda dos aliados fazia recuarem quase desordenadamente as tropas invasoras numa distância de 70 quilômetros enquanto Joffre Rolah e a ala direita formavam ângulo em Verdum com as tropas de leste cobrindo-as assim contra um envolvimento do Darro. (Trecho 82. Tática, p. 51).
É crucial pensar no novo estilo de literatura lançado pelo autor que, através de “flashes cinematográficos”, consegue atrelar num ato criativo e poético, suas memórias e sentimentos numa perspectiva subjetiva e, portanto, ausente de quaisquer características de tempo ou espaço. As lembranças se fundem simultaneamente, constituindo flashes mentais. Além disso, há uma “descontinuidade cênica” que é revelada pela despreocupação de Oswald em traçar uma linha cronológica em sua invenção, cuja junção dos fragmentos emergiria uma nova imagem maior, sendo este o sentido cinematográfico numa perspectiva eisensteiniana (Teoria da Montagem), o que aproxima esta obra de Oswald, como destacou Haroldo de Campos, à Ulysses, de Joyce.
Ainda nesta composição estética, Oswald utiliza sintaxe e estilística renovadas, fragmentando as frases e retirando a maior parte das pontuações, causando descontinuidade e justaposição, fatores composicionais que reforçam a idéia despreocupada da não linearidade:
Os jornais noticiaram de repente que acossada pela flagração achava-se em Pernambuco a bordo do Darro a jovem estrela cinematográfica Mlle. Rolah.
Até ontem a ala esquerda dos aliados fazia recuarem quase desordenadamente as tropas invasoras numa distância de 70 quilômetros enquanto Joffre Rolah e a ala direita formavam ângulo em Verdum com as tropas de leste cobrindo-as assim contra um envolvimento do Darro. (Trecho 82. Tática, p. 51).
Por outro lado, esta estética pode ser comparada à preceitos do futurismo plástico no que se trata de simultaneidade, também compreendida como “imaginação sem fios”. Parte disso porque o próprio movimento futurista, adotado por Oswald desde sua visita a Europa, pretendia abolir a sintaxe, os adjetivos e pregava uma nova estética, sendo afirmado no Brasil com o contexto do Manifesto-Fondazione del Futurismo, de Marinetti, que dizia, dentre outras coisas: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia”, atrelando esta ideologia à estrutura das obras como observamos ao ler, por exemplo, “O vento batia a madrugada como um marido. Mas ela perscrutava o escuro teimoso”, em Miramar.
Percebe-se que, apesar de ter um forte conteúdo ligado a linguagem escrita, “Memórias sentimentais de João Miramar” pode ser lido sob a óptica da linguagem audiovisual que as teorias do cinema e das artes plásticas nos proporcionam. Esta obra também submete-nos a uma reflexão filosófica que só é reconhecida se lida, como diz o autor, “com olhos livres”.
Neste sentido, pudemos compreender o sentido de história e invenção, a partir de um contexto histórico e de um outro contexto pessoal, Oswald inventou uma narrativa, dividindo-a em 163 cenas breves e assistemáticas, as quais representam o retrato cotidiano da vida do próprio autor, através de uma forma difusa e inovadora desde a construção sintática até a montagem visual – quase cinematográfica – do todo da obra.
Referências
ANTUNES, Arnaldo. Cabimento. Letra de música, disponível em
ANDRADE, Oswald. Memórias sentimentais de João Miramar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 5ª ed.,1975.
BOSI , Ecléa. O tempo vivo da memória : Ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2ª ed. 2003
BOSI, Alfredo. Moderno e modernista na literatura brasileira. In: Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo, duas cidades, 34ª ed., 2003.
CAMPOS, Haroldo de. Texto e história. In: A operação do texto. Perspectiva, 1976.
SALOMÃO, Waly. Carta aberta a John Ashbery. Poema disponível em:
WEINRICH, Harald. Lete: arte crítica do esquecimento. Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro, Civilização brasileira, 2001.




