Fazendo uso de um "modernismo classicizado", como nomeia Coelho, 2008, a poesia de Jorge de Lima segue rica em imagens que retoma formas clássicas, assim como diz Coelho "Jorge de Lima parece ter mergulhado num mangue noturno de poemas imersos, herméticos, angustiados". (Coelho, 2008).Pode-se perceber no soneto a presença de rimas cruzadas ABAB, BABA, CDE, CDE com versos bem acabados. As rimas fechadas (ado, ido, oga, oço, ole) nos faz perceber a circularidade do poema e toda a estrutura fechada, intensificada pela repetição da palavra "tão" nos dois primeiros versos, decorrente do título do soneto, "rochedo do sono é tão fechado". Além da forma clássica, há presença de enjambement no sétimo verso, causando uma tensão e suspensão da realidade "o cão noturno late, e seu latido/ é o grito do menino já afogado".No decorrer do poema aparecem várias isotopias referentes ao rochedo que demonstra que todas as imagens estão ligadas ao mesmo: pedra, bojo, poço. Nos chama atenção o fato de surgirem três nomes de personagens históricas: Esaú, Édipo e Barba-azul. O primeiro é um personagem bíblico que teve o seu direito de primogênito usurpado pelo irmão Jacó. Essa desavença entre os irmãos desencadeou a divisão de duas nações: Israel e Palestina. O segundo é personagem da mitologia grega, que ao tentar fugir de seu destino, mata o pai e casa-se com a própria mãe. O terceiro é personagem de uma lenda infantil francesa que ficou conhecido por colecionar os corpos das esposas assassinadas por ele. Todos os personagens ligados por conflitos internos. O movimento surrealista é caracterizado pela escrita automática, que representa o real extraído do sonho. Neste caso, o rochedo representa a zona oculta do subconsciente de cada personagem em conflito. Fato que explica as figuras de peso no poema"o rochedo do sono é tão pesado/ tão pedra de Esaú, tão existido/ que ele cumpre na vida um grande fado/ o de acolher um Édipo impunido". O ambiente onírico reforça esse fato, visto que as pessoas normalmente sonham quando dormem. Vale uma compração entre o concreto e o abstrato "que pedra e amor é o mesmo no seu gole", reafirmada pelas metáforas do incosciente em forma mais concreta: rochedo, pedra, poço. A água, presente a partir do oitavo verso, significa o elemento da punição "é o grito do menino já afogado/ e engole indiferente a quem se afoga". É o lemento redentor e único que possui movimento diante da forma estática presente a partit do rochedo em todo o poema. Essa dualidade água/ rochedo, vista simbolicamente, pode contrapor o movimento/ forma estática; vida/ morte. Pode-se perceber a presença do subconsciente do eu-lírico (principalmente nos versos antecipados de travessão, possivelmente indicando a fala do subconsciente) tentando se externalizar através das formas concretas que remetem a ações dignas de punição.
REFERÊNCIAS:
ANDRADE, Mário. Paulicéia desvairada: modernização de São Paulo (ensaio).
BOSI, Alfredo. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo, duas cidades, ed. 34, 2003.
COELHO, Marcelo. Poemas herméticos e angustiados. 2008, (ensaio)In:http://www.revista.agulha.nom.br/ag56lima.htm.
LIMA, Sérgio. Notas acerca do movimento surrealista no Brasil. In: http://www.triplov.com/surreal/sergio_lima.html.
WILLER, Claudio. Surrealismo no Brasil- rebelião e imagens poéticas. In: http://www.revista.agulha.nom.br/ag27willer.htm.
Epa, menina! Super análise! Adorei. Gostei de ver um autor alagoano por aqui. Pena que nas nossas escolas ele não recebe a devida atenção. Eu mesma não li sequer partes de sua produção. :D
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