sexta-feira, 1 de maio de 2009

O regresso

Ela nunca conseguia tomar qualquer decisão sem levar, pelo menos, alguns minutos. Quando o sol estava encoberto por nuvens espessas, não sabia se levava o guarda-chuva. Quando entrava em uma loja, não sabia que camiseta ou jeans comprar. Luísa nunca sabia que decisão tomar e isto a inquietava muito. Não saber o que vestir, não saber o que comprar, não saber para onde ir. Uma vida cheia de dúvidas.
Mas as dúvidas de Luísa não eram as únicas coisas inquietantes em sua vida. Detestava ter que agir como um robô, falar como um robô, sorrir como um robô ou algum tipo de marionete. Sentia como se alguém estivesse dentro dela realizando todas aquelas ações de sempre, como se estivesse atuando numa peça, mas do lado de fora. Sentia vontade de gritar: “Pare!” e tentar dominar seus olhos, suas mãos, seu corpo. Mas sabia que não adiantaria muita coisa, pois estava no meio de uma cachoeira prestes a ser levada pela queda d’água.
Uma vez leu em algum lugar que a vida era repleta de sonhos sem formas. Achou bonito, mas não conseguiu pensar qual era seu sonho ou mesmo definir se tinha algum. Até então, sonho para ela era algum tipo de bolinho que se compra na padaria.
Estava exausta de sentir-se culpada por tudo aquilo que não fazia; de acabar mais um dia de trabalho com aquele nó na garganta e uma sensação de vazio dentro do estômago; de tomar todos aqueles banhos demorados e continuar sentido-se suja; de sentir um vazio ao beijar o homem que sempre dava caixas de bombons quando completavam mais um mês de namoro; de dizer “alô” com a mesma voz; de ter que sorrir para os amigos e participar das conversas das quais não gostava.
Estava cansada de tudo isso. De ser uma espectadora da sua própria vida.
Foi com esse sentimento que, numa bela noite de setembro, Luísa fechou os olhos e sonhou. Sonhou com algo que nunca sequer tinha imaginado.
Sonhou que estava em um jardim grande e com uma fonte de águas puras no centro. Não sabia como, mas sentia que, se tomasse daquela água, ficaria imaculada. Sentiu suas roupas sumirem gradativamente. Ela estava envergonhada e mesmo assim queria entrar inteira na fonte, mas tinha medo que sua sujeira contaminasse o local. Sentia-se extremamente suja naquele momento. Inclinou-se um pouco e tomou uns goles de água e uma sensação de imenso alívio a contagiou.
Regressou para o útero de sua mãe.
Lembrou daquele calor humano e uma sensação de proteção encheu seu coração de paz. Queria ficar para sempre naquele invólucro cheio de amor. De repente, notou que uma força a estava expulsando de dentro de sua mãe e, quando deu por si, ela estava no balanço sendo empurrada por um garoto um pouco maior que ela. Tinha sete anos naquela ocasião e foi a primeira vez que viu seu atual namorado. Sentiu novamente a mesma força de há pouco e se viu num beco, atrás da escola no dia da sua formatura com o rapaz mais lindo da sala. Mas ele não era o seu namorado. De novo aquela força, mas desta vez ela não parou em nenhuma etapa de sua vida e sim, ao lado da fonte. Demorou um pouco para se acostumar novamente com o lugar. O cheiro das flores chegou às suas narinas e ela ficou calma.
Aos poucos foi notando que umas pessoas se aproximavam. Não teve vontade de se vestir, pois agora sentia-se pura. Rapidamente ela percebeu que as pessoas também estavam nuas e não estavam envergonhadas. “Já devem ter tomado da água”, pensou. Então, o grupo foi se afastando e ela foi se mexendo em direção aquelas pessoas tão diferentes das que ela estava acostumada. Ela se deixou conduzir por uma estradinha com árvores cheias de frutos. Analisou demoradamente o formato dos frutos e concluiu que nunca os tinha visto antes. Queria nunca mais sair daquele lugar e deixar de sentir aquela sensação de desligamento de tudo.
Ao fim da caminhada, chegou ao hall de um salão enorme e branco. As paredes eram brancas e havia uma mesa com uma toalha branca e uma vasilha azul. Era um tom de azul diferente, quase opaco visto de longe. Não deu muita importância para aquilo e continuou olhando ao redor. Na sala em frente ao hall havia um grupo de idosos meditando e sussurrando umas palavras incompreensíveis. Aproximou-se do velho com a barba grande e limpa e com vestes brancas para tentar ouvir o que ele dizia. Mal chegou perto e de repente, veio uma sensação estranha e seu corpo começou a se contorcer em cólicas doloridas e irritantes. Um baque surdo e uma pancada sólida se formaram quando seu corpo entrou em atrito com o chão. Mais e mais dores. Ela berrou até sentir que a voz lhe faltava. A sensação de agulhas penetrando seu corpo e uma dor de cabeça aguda a fizeram pensar que se aquilo não parasse poderia enlouquecer. Queria entender porquê aquilo estava acontecendo, mas não conseguia raciocinar direito. Os minutos pareciam horas, dias. Quando, enfim, as dores cessaram, levantou-se. Organizou os pensamentos, confusos depois da queda, e percebeu que nada havia mudado no local. Ninguém parecia ter percebido o que havia acontecido ou mesmo notado sua presença no lugar. Cada pessoa na sala continuou fazendo exatamente a mesma coisa que fazia antes dela chegar.
Ficou atordoada diante da situação, mas não por muito tempo. Curiosamente foi em direção a mesa e olhou para dentro da vasilha que vira ao chegar. Era funda e dessa vez a cor não lhe pareceu opaca e sem vida, mas de um azul incandescente que fizeram seus olhos fecharem. Ao conseguir abri-los novamente pôde perceber que, no centro da vasilha, havia um relógio marcando sete horas da manhã, a hora que despertava todos os dias.
Um jato de luz invadiu o ambiente e ela soube que era hora de voltar.
Acordou.
Estava suada e exausta. Não lembrava de nada. Apenas sentia uma leve sensação de tontura e um calafrio arrepiou os pêlos do seu braço. Após alguns minutos, levantou-se. Foi lavar o rosto no banheiro e ao mirar sua imagem no espelho, não percebeu nada de diferente. Sentiu-se aliviada por alguns segundos.
Demorou bastante em frente ao espelho refletindo sobre tudo o que havia passado naquela noite, em seu sonho. Respirou fundo e pela primeira vez em sua vida, Luísa sabia exatamente o que fazer.

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